Política

PDT-SP enfrenta guerra interna por divisão do Fundo Eleitoral: “Esmola”

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Candidatos afirmam que receberam valores abaixo do esperado no Fundo Eleitoral e cobram o PDT-SP por promessas feitas durante a campanha  |   BNews SP - Divulgação Foto: Reprodução/PDT
Amanda Ambrozio

por Amanda Ambrozio

Publicado em 04/09/2026, às 10h50



A divisão do Fundo Eleitoral provocou uma crise interna no PDT de São Paulo.

Candidatos a deputado federal pelo estado afirmam que o partido não estaria cumprindo promessas de repasses financeiros e de estrutura para as campanhas das eleições deste ano.

Segundo relatos obtidos pelo Metrópoles em um grupo de WhatsApp formado por candidatos, alguns postulantes receberam entre R$ 100 mil e R$ 400 mil, enquanto outros teriam ficado sem recursos ou recebido valores considerados insuficientes, como R$ 10 mil.

Neste ano, o PDT tem direito a cerca de R$ 169,3 milhões do Fundo Eleitoral para financiar candidaturas em todo o país.

A distribuição dos recursos entre os candidatos, porém, é definida pelas próprias direções partidárias dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral.

Nas conversas, registradas entre agosto e esta quinta-feira (3), candidatos classificaram a situação como “chacota”, “constrangimento”, “injustiça” e “vergonha”.

Um dos integrantes chegou a chamar o dinheiro recebido de “esmola”.

Candidatos reclamam de falta de dinheiro e material

A insatisfação não se limita aos valores repassados. Os candidatos também relatam falta de materiais básicos para a campanha, como panfletos e bandeiras.

“Vontade é sair, abandonar o partido e tomar outras providências. Como que a gente vai ficar nessa situação? [...] E a gente sem material, sem nada, sem dinheiro, recursos, sem fundo partidário, sem nada, sem material”, reclamou um dos candidatos no grupo.

Outro participante afirmou que candidatos teriam recebido quantias muito diferentes entre si, apesar de disputarem o mesmo cargo.

“Candidatos pegaram R$ 400 mil e outro pega R$ 10 mil, R$ 15 mil. Gente, o estadual pegou R$ 2,6 mil, aí também é brincadeira, não dá nem para pagar o advogado”, escreveu.

Parte dos candidatos chegou a discutir a possibilidade de retirar as próprias candidaturas diante da falta de estrutura.

Candidatos acusam partido de privilegiar influenciadores

Uma das principais críticas feitas no grupo é a de que o PDT-SP estaria priorizando candidatos com maior alcance nas redes sociais.

Segundo os relatos, postulantes que atuam como youtubers e influenciadores estariam recebendo valores superiores aos destinados a outros candidatos.

“Candidatos que são youtubers, candidatos que são influencers, estão ganhando mais de R$ 50 mil. Com todo o respeito, eu não me sinto diferente, nem pior do que eles, para receber só 10 mil reais”, afirmou uma das participantes.

Os candidatos também questionam a falta de critérios claros para a distribuição dos recursos e alegam que alguns nomes considerados próximos da direção partidária teriam sido beneficiados.

Uma das mensagens critica ainda a estratégia da legenda para superar a cláusula de barreira. “Eu entendo que o partido quer ultrapassar a cláusula de barreira, quer ganhar, quer continuar, porque existe uma necessidade do partido de continuar, mas desse jeito, cara, com essa desorganização, isso aqui virou um quiosque”, escreveu outro candidato.

Promessa de verba em Brasília aumentou insatisfação

Os integrantes do grupo também relatam que receberam a promessa de que haveria auxílio financeiro para as candidaturas durante uma viagem a Brasília.

Um dos candidatos afirmou que o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, teria sinalizado que recursos seriam liberados para os candidatos a deputado federal.

“Estivemos em Brasília, viajamos a noite toda, de ônibus, passando frio, fome, dificuldade, e o próprio Lupi falou na reunião que iria liberar verba para os candidatos. Só que é o seguinte, vocês estão esquecendo que São Paulo é a maior cidade do Brasil, como é que um candidato faz uma campanha para ganhar com R$ 10 mil, com R$ 2 milhões já não ganha”, relatou.

Outro ponto de reclamação envolve a falta de suporte da direção estadual e municipal. Os candidatos mencionam o presidente nacional Carlos Lupi e Antônio Neto, presidente do diretório municipal do PDT em São Paulo.

Em uma das conversas, também é citada uma suposta orientação para que os candidatos recorressem a amigos e apoiadores para compensar a falta de material e de estrutura oferecida pelo partido.

Candidatas questionam distribuição por critérios raciais

As reclamações também envolvem a distribuição dos recursos entre candidatos autodeclarados de diferentes grupos raciais.

Uma das candidatas afirmou que mulheres negras que integram a chapa estariam recebendo menos recursos do que candidatas brancas que, segundo ela, teriam se declarado pardas.

“Nós, mulheres pretas, completando a chapa, que nos chamaram para ajudar, fizemos tudo certinho, e vendo mulheres brancas ganhando mais do que nós. Está tudo desorganizado”, escreveu.

As acusações, contudo, são relatos feitos pelos próprios candidatos no grupo e não comprovam, por si só, irregularidades na autodeclaração racial ou na distribuição dos recursos.

O que diz o PDT

Procurado, o Diretório Estadual do PDT em São Paulo não havia se manifestado até a publicação da reportagem.

Em uma das conversas, porém, Ewerton Roberto Carreirinha, secretário adjunto-geral estadual do partido, respondeu às reclamações dos candidatos e negou que tenham sido feitas promessas de recursos.

Segundo ele, a distribuição da verba considera as necessidades da estrutura partidária e das candidaturas em diferentes níveis.

“Nenhuma promessa foi feita a ninguém. O partido nunca enganou ninguém a respeito de verbas”, afirmou.

Carreirinha também disse que os recursos da legenda são administrados considerando as demandas nacionais, estaduais e a estrutura das candidaturas.

“Peço desculpas pelos transtornos enfrentados e reafirmo meu compromisso com o crescimento dessa legenda, pela qual tenho um profundo respeito e dedicação. Estamos trabalhando para mitigar os problemas dentro das nossas possibilidades”, afirmou.

O dirigente acrescentou que candidatos insatisfeitos têm liberdade para seguir outro caminho. “Aqueles que estiverem descontentes ou que desejem seguir outro caminho possuem total liberdade, pois vivemos em uma democracia e respeito essa decisão”, disse.

Como funciona o Fundo Eleitoral

O Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundo Eleitoral, foi criado pelas leis nº 13.487/2017 e 13.488/2017 e está previsto na Lei das Eleições.

A verba é distribuída aos partidos exclusivamente em anos eleitorais e passou a ter papel central no financiamento das campanhas depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu, em 2015, as doações empresariais.

Em 1º de junho, a União disponibilizou à Justiça Eleitoral cerca de R$ 4,9 bilhões para o financiamento das campanhas de 2026. O PL recebeu a maior fatia, com R$ 881,7 milhões, seguido por PT, com R$ 615,4 milhões, e União Brasil, com R$ 526,2 milhões.

A distribuição dos recursos entre os partidos segue critérios definidos em lei. Do montante, 2% são divididos igualmente entre as legendas com estatuto registrado no TSE; 35% são distribuídos conforme os votos obtidos na última eleição geral para a Câmara dos Deputados; 48% consideram o número de representantes eleitos para a Câmara; e 15% levam em conta a representação dos partidos no Senado.

Depois de receber os recursos, cada partido estabelece os critérios de distribuição entre seus candidatos, respeitando as regras eleitorais, inclusive as relacionadas à aplicação mínima de recursos em candidaturas femininas e de pessoas negras.

Classificação Indicativa: Livre

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