Polícia
por Marina do Val
Publicado em 12/09/2026, às 06h00
O avanço da tecnologia no combate a fraudes financeiras ganhou um obstáculo inusitado no Brasil.
Uma nova modalidade de crime digital, batizada de "golpe do sósia", tem conseguido burlar sistemas de validação biométrica facial em bancos, fintechs e operadoras de telefonia ao inverter a lógica tradicional do estelionato.
Em vez de roubar os dados de uma pessoa para tentar se passar por ela posteriormente, os golpistas agora usam sistemas de comparação facial para varrer bases ilícitas de dados em busca de alguém que seja fisicamente parecido com o próprio criminoso.
Com um "sósia" identificado, o estelionatário utiliza suas próprias feições para passar pelos testes de validação facial e abrir contas, solicitar empréstimos ou emitir cartões em nome da vítima.
Os dados fazem parte do levantamento Mapa da Fraude, realizado pela Serasa Experian no primeiro semestre.
Segundo o relatório, os sistemas de segurança e monitoramento no país conseguiram barrar 2,86 milhões de tentativas de invasão e falsificação nos primeiros seis meses do ano, o que representa um crescimento de 32,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O ritmo equivale a um ataque de alto risco deflagrado a cada 5 segundos no Brasil. Apesar do elevado volume, as barreiras de proteção evitaram um prejuízo direto estimado em R$3,77 bilhões para instituições e consumidores.
A região Sudeste lidera o número absoluto de ataques, concentrando 46,5% de todas as investidas interceptadas no país, o que equivale a 557 mil ocorrências.
O risco de fraudes no Sudeste costuma registrar picos em datas comemorativas, a exemplo do Dia dos Namorados, quando o volume de falsificações chegou a subir 22% acima da média nacional.
As pessoas pertencentes às Gerações Z e X são o alvo principal da nova fraude, somando juntas mais de 62% das vítimas.
A alta exposição digital e a constante realização de cadastros online instantâneos por esse público facilitam a captação de seus dados por páginas falsas e anúncios fraudulentos.
Os criminosos também demonstram planejamento estratégico em relação ao tempo, concentrando as ações prioritariamente às terças e quartas-feiras, no intervalo entre 11h e 15h.
O horário é escolhido intencionalmente por coincidir com o pico de movimentação de tarefas das equipes de análise de risco e por ser o momento em que os próprios usuários estão mais desatentos.
O setor de telefonia lidera o índice proporcional de vulnerabilidade, apresentando uma taxa de risco de 3,56%, patamar 84% superior à média nacional.
Na prática, a emissão fraudulenta de chips de celular serve como ponte para interceptar códigos de validação bancária.
No volume absoluto, o mercado financeiro, composto por bancos digitais, fintechs e emissoras de cartão, continua sendo o segmento que mais sofre investidas no país.
Para validar as contas, documentos físicos como a CNH, presente em 0,52% das tentativas, e o RG, em 0,42%, continuam sendo usados como insumo estratégico após o cruzamento facial.
Especialistas alertam que a verificação facial simples deixou de ser suficiente para garantir a segurança.
A recomendação da Serasa Experian para as empresas inclui a aplicação de prova de vida em tempo real, checagem automatizada de documentos e análise comportamental contínua do usuário durante a navegação.
Para os consumidores, a orientação é manter atenção redobrada e desconfiar de perdas repentinas de sinal no celular, notificações sobre aberturas de contas não solicitadas e mensagens promocionais que condicionem benefícios ao envio imediato de fotos ou documentos pessoais.
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