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Polícia

Caso Gisele: tenente-coronel ri, se emociona e diz ser "assassino do ano" durante interrogatório

O interrogatório foi marcado por reações emocionais do tenente-coronel, que comentou as acusações de feminicídio da esposa, a PM Gisele Santana  |  Foto: Reprodução/Redes Sociais

Publicado em 16/10/2026, às 15h00   Foto: Reprodução/Redes Sociais   Amanda Ambrozio

O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 54 anos, réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32, afirmou ter sido “eleito o assassino do ano” durante um interrogatório à Justiça de São Paulo.

Ao longo de mais de oito horas de depoimento, realizado na semana passada, o policial chorou, sorriu, criticou a investigação e voltou a sustentar que a mulher cometeu suicídio.

Gisele foi encontrada com um tiro na cabeça em fevereiro deste ano. Além de responder por feminicídio, Rosa Neto é acusado de fraude processual. Ele nega os crimes e afirma estar preso injustamente há mais de 200 dias.

Durante o interrogatório, o tenente-coronel classificou as acusações como “absurdas” e disse que uma narrativa falsa foi construída a seu respeito.

A versão apresentada por ele, porém, contraria as conclusões da perícia: um laudo complementar do Instituto de Criminalística (IC) manteve o entendimento de que Gisele não poderia ter efetuado o disparo contra a própria cabeça.

Réu chorou ao negar feminicídio e questionou acusações

No início do interrogatório, a juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro explicou que o réu poderia permanecer em silêncio ou responder total ou parcialmente às perguntas. Ao ouvir a leitura das acusações, Rosa Neto afirmou que não havia cometido os crimes.

Nos primeiros seis minutos, ele chorou ao negar ter matado a esposa e voltou a defender a hipótese de suicídio. O policial também disse que cerca de 30 mentiras teriam sido divulgadas na televisão e na internet e que a opinião pública passou a tratá-lo como um assassino.

O tenente-coronel ressaltou que tinha mais de 35 anos de serviço na Polícia Militar, sendo três deles no posto de tenente-coronel, e afirmou que sua trajetória profissional foi ignorada após a morte da esposa.

“Eu não sou um assassino. Eu estou há 202 dias preso injustamente porque eu não cometi crime nenhum. Eu não matei a minha esposa”, disse.

Rosa Neto também afirmou que a morte foi transformada em um caso de feminicídio por causa do período em que ocorreu, próximo ao Mês da Mulher, quando são realizadas campanhas de combate à violência de gênero.

“Transformaram o suicídio em feminicídio. Nos meus argumentos aqui eu vou provar que não aconteceu feminicídio. Foi suicídio e eu sou inocente”, declarou.

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Tenente-coronel falou sobre emagrecimento e rotina na prisão

Em diferentes momentos, o réu mencionou o período em que está preso e afirmou ter perdido 16 quilos desde a detenção. Segundo ele, o peso passou de 96 para 80 quilos, em razão do estresse, da dificuldade para dormir e da falta de alimentação adequada.

“Eu não comi direito, não dormi direito. Estou acabado”, afirmou.

O policial também reclamou das condições da prisão e disse que sofre psicologicamente. Segundo ele, realiza acompanhamento psicológico semanal no presídio militar Romão Gomes, na capital paulista.

Rosa Neto relatou ainda que, ao chegar à unidade prisional, foi recebido por gritos e palavrões de outros detentos. Segundo o UOL, ele comparou a reação a uma comemoração esportiva.

“Parecia comemoração com a minha prisão, porque foi criado um discurso de ódio tão grande contra mim, tão grande, que eu fui eleito o assassino do ano”, declarou.

O réu disse que não costuma socializar com os demais presos e que frequenta cultos evangélicos todas as noites. Também afirmou conversar diariamente com Deus e pedir que sua inocência seja reconhecida.

Réu atribuiu comportamento agressivo à esposa

Ao longo do depoimento, Rosa Neto afirmou que Gisele era ciumenta, possessiva e que, em algumas ocasiões, gritava com ele, proferia palavrões e o agredia. Segundo o tenente-coronel, esse comportamento não existia no início do relacionamento.

Ele chegou a comparar a situação à violência doméstica e disse que poderia ter pedido uma medida protetiva, fazendo uma referência irônica à Lei Maria da Penha.

O policial também negou que a esposa fosse submetida a uma relação de servidão, como teria sido apontado por familiares da soldado. Segundo ele, era o próprio tenente-coronel quem realizava tarefas domésticas, como a limpeza e a manutenção do apartamento.

Além de questionar a imagem de homem ciumento e agressivo atribuída a ele, Rosa Neto fez críticas aos pais de Gisele, a um ex-companheiro dela e a amigas da vítima. Também sugeriu que dificuldades pessoais e conflitos anteriores poderiam explicar o comportamento da soldado.

Em outro momento, ao comentar a roupa que usava durante a audiência, o tenente-coronel afirmou ter reservado uma camiseta para o interrogatório. Ele vestia uma blusa amarela com a sigla do Presídio Militar Romão Gomes e uma calça cinza-claro.

Policial questionou atendimento e trabalho da perícia

Rosa Neto também criticou a atuação das equipes que atenderam à ocorrência. Ele questionou o número de socorristas e policiais que foram ao apartamento após o disparo e afirmou que a mobilização foi desproporcional ao que, segundo sua versão, seria uma tentativa de suicídio.

“30 policiais não precisava. Parecia que estava tendo um ataque terrorista. Acho que nem no World Trade Center tinha tantos policiais quanto tinha ali [no meu prédio] naquele dia”, afirmou.

O réu também levantou questionamentos sobre a investigação da Polícia Civil e o trabalho das peritas. Entre as críticas, mencionou a preservação do apartamento, a análise do celular de Gisele e a ausência, no processo, de mensagens carinhosas que, segundo ele, enviava à esposa.

Em setembro, a Polícia Civil afirmou que a investigação foi conduzida de forma “técnica, independente e imparcial”.

Durante a audiência, a juíza precisou chamar a atenção do réu mais de uma vez por se afastar das perguntas e fazer comentários que não respondiam diretamente aos questionamentos.

Em uma dessas ocasiões, a magistrada afirmou que ele não estava no fórum para se defender das acusações feitas na internet. Rosa Neto respondeu que a televisão havia criado uma imagem de assassino que, segundo ele, não corresponde à realidade.

Mensagens provocaram reação durante audiência

Em um dos trechos do interrogatório, o tenente-coronel sorriu enquanto a promotora lia uma mensagem na qual ele afirmava tratar Gisele como “todo macho alfa trata a sua esposa”. Depois da leitura, ele riu e negou ter enviado o texto à companheira.

O réu também voltou a chorar ao descrever o momento em que encontrou Gisele caída e acionou o socorro. Na sequência, reiterou a hipótese de suicídio e mencionou aspectos da vida da mulher antes de conhecê-lo, incluindo dificuldades financeiras e problemas com pessoas de seu convívio.

Ao final da audiência, a defesa pediu a liberdade do tenente-coronel. Enquanto o advogado apresentava o pedido, Rosa Neto colocou as mãos diante do rosto em um gesto semelhante a uma oração. A Justiça negou a solicitação.

Família de Gisele contesta versão do réu

O advogado da família de Gisele, José Miguel Júnior Silva, afirmou que a versão apresentada pelo tenente-coronel é incompatível com as provas e os depoimentos reunidos no processo. Segundo ele, não há evidências de que a soldado fosse uma pessoa violenta ou agredisse o marido.

Para o advogado, Rosa Neto tenta construir uma narrativa em que aparece como vítima e desqualifica a imagem da esposa para sustentar a própria defesa.

“É triste você ver uma pessoa querer desqualificar uma moça como a Gisele, que era uma excelente mãe, uma excelente filha e esposa, como narrado pelo próprio ex-marido dela. A Gisele era um doce de pessoa e, infelizmente, a pessoa, para se defender, tentar justificar um feminicídio que passe a constar como suicídio, ele tenta difamar a imagem dela. Isso é reprovável”, declarou.

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